terça-feira, 27 de janeiro de 2015



© ssobrado, viseu, 2014 | entre muros




'Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um 
muro de angústia em torno. (...)'

Fernando Pessoa, in 'Carta a Mário de Sá-Carneiro'





sábado, 17 de janeiro de 2015




© ssobrado, porto, 2015 | espelho meu




'Nenhum espelho há que te mostre a verdade?'
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 







sexta-feira, 16 de janeiro de 2015




© ssobrado, porto, 2014 |  lenta ascensão





 (...) Mas tudo são degraus; tudo é fugir 
à humana condição. 
Degrau após degrau, 
tudo é lenta ascensão. 

Fernanda de Castro, in Os Anos São Degraus





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

© ssobrado, viseu, 2014 | 39




gnr | bem-vindo ao passado



Há vária gente que não gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado é reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a ternura e a legenda, o absoluto e a música, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere. 

Vergílio Ferreira, in Conta-corrente 5










terça-feira, 2 de dezembro de 2014



© ssobrado, porto, 2014 | a ponte



É urgente elevar a pessoa à posição do espanto. É daí que se abre o mundo. 
Qualquer coisa possui em si o mistério de tudo e a nossa distância vai daqui para ali, e volta. 

Pedro Paixão, in O Mundo é Tudo o que Acontece




na foto: Paulo Calatré





quinta-feira, 27 de novembro de 2014


© ssobrado, porto, 2014 | real - imaginado




Seja como for, vivo agora num país de fronteira. É onde me sinto bem. Bem... à vontade. 
Pelo menos já não me preocupa se o que eu penso é fantasia ou se aquilo que eu tomo como imaginado 
por mim pode muito bem ser real... a realidade externa. 
Real - imaginado - facto - ficção - fantasia - realidade - eis o que me parece ser. E parece-me bem. 
Porque é que deveria continuar a interrogar-me?

'Molly Sweeney', de Brian Friel

* na foto: Paulo Calatré



segunda-feira, 24 de novembro de 2014




© ssobrado, porto, 2014 | breve interlúdio






Como é difícil entendermo-nos com a vida. Nós a compor, ela a estragar. Nós a propor, ela a destruir. O ideal seria então não tentarmos entender-nos com ela mas apenas connosco. Simplesmente o nós com que nos entendêssemos depende infinitamente do que a vida faz dele. Assim jamais o poderemos evitar. E todavia, alguns dir-se-ia conseguirem-no. Que força de si mesmos ou importância de si mesmos eles inventam em si para a sobreporem ao mais? Jamais o conseguirei. O que há de grande em mim equilibra-se nas infinitas complacências da vida que me ameaça ou me trai. E é nesses pequenos intervalos que vou erguendo o que sou. Mas fatigada decerto de ser complacente, à medida que a paciência se lhe esgota em ser intervalarmente tolerante, ela vai-me sendo intolerante sem intervalo nenhum. E então não há coragem que chegue e toda a virtude se me esgota na resignação. É triste para quem sonhou estar um pouco acima dela. Mas o simples dizê-lo é já ser mais do que ela. A resignação total é a que vai dar ao silêncio. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 4'



* na foto: Paulo Calatré