quarta-feira, 27 de agosto de 2014


   
© ssobrado, porto, 2014 |  o equilíbrio do medo








(...) Serei capaz 
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas? 


Manuel António Pina, O Medo, in 'Nenhum Sítio'






terça-feira, 19 de agosto de 2014


© ssobrado, porto, 2014 | será assim o amor





Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça, Os Amigos in De Igual para Igual






domingo, 13 de abril de 2014

© ssobrado, lisboa, 2014 | nesse quarto sossegado




Há sempre um quarto sossegado na esquina do nosso ser e podemos sempre recolher-nos nele para descansar. Não nos podem tirar isso. Há um ano que estou a trabalhar sem parar nesse quarto sossegado dentro de mim, e agora ele tornou-se numa grande sala, verdadeira e autêntica. 


Etty Hillesum, Diário (5 de Julho de 1942)







terça-feira, 11 de março de 2014


© ssobrado, porto, 2014 | exílio




Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.  

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto






terça-feira, 21 de janeiro de 2014



© ssobrado, lisboa, 2013 | point mort






Quero-me, enfim.
Procuro os pedaços de alma 
que só na memória sinto.
Chegou o tempo. Reclamo cada um. 
Encontre-me a morte inteira.

S.S.






* em memória do meu amigo Zé Monteiro.